Como foi o crime que deixou dois delegados federais mortos em Florianópolis

Matéria veiculada no Notícias do Dia em 31/05/2017.

Da esquerda para a direita, o delegado Adriano Antonio Soares, o comerciante Nilton Cesar de Souza, e o também delegado federal Elias Escobar - Divulgação/ND

O delegado da Polícia Federal que iniciou as investigações sobre a morte do ministro do STF (Superior Tribunal Federal) Teori Zavascki, num acidente de avião em Paraty (RJ), em 19 de janeiro de 2017, morreu em um confronto armado em Florianópolis, na madrugada desta quarta-feira (31). O tiroteio ocorreu em uma casa de prostituição, por volta das 2h. Atualmente a investigação sobre a morte de Teori é presidida por outro delegado em Brasília.

Adriano Antonio Soares, 47, estava na hora errada e no lugar errado com o colega, o também delegado federal Elias Escobar, 60, quando foram surpreendidos pelos tiros efetuados por um comerciante que também estava no estabelecimento, conhecido como “Portinha Azul”. Eles foram mortos num corredor apertado do local.

A casa havia sido interditada pelo setor de Jogos e Diversões da Polícia Civil em maio do ano passado. A documentação sobre a interdição foi encaminhada para a 4ª DP em março deste ano. O delegado Ilson da Silva instaurou inquérito policial para apurar crime de facilitação à prostituição. “Foi até uma surpresa para nós saber que ela estava funcionando”, comentou o delegado Ilson.

Ilson disse que vai relatar no inquérito policial, a ser concluído na próxima semana, a morte dos dois delegados. Segundo ele, consta na razão social que a casa pertence a um casal, mas quem gerencia é uma mulher. Não existe placa nem qualquer outra indicação de uisqueria, boate, ou outra casa do gênero. O ambiente recepcionado por garotas é discreto e fica localizado na rua comercial Fúlvio Aducci, no bairro Estreito.

Portinha Azul

Os delegados federais Soares e Escobar são lotados no estado do Rio de Janeiro, mas estavam fazendo um curso de capacitação em Florianópolis. Eles teriam aproveitado o último dia de curso e foram jantar fora, no Ribeirão da Ilha. No retorno para o hotel, teriam pedido para o taxista levá-los para uma casa de mulheres, que não fosse muito ostentosa. O pedido foi aceito e o motorista os levou ao Portinha Azul.

Já passava das 2h da madrugada e, naquele momento, havia apenas duas garotas e dois clientes:  o dono de um comércio de cachorro-quente, Nilton Cesar de Souza, e um funcionário dele. Logo em seguida, de acordo com informações do Copom (Centro de Operações Policiais Militares), os dois delegados teriam chegado ao local de táxi. Na recepção da casa, já ocorreu uma indisposição entre o delegado Escobar e o dono do cachorro-quente, que treina tiro prático em um clube de tiro de Florianópolis.

Conforme testemunhas, ocorreu um bate-boca acirrado entre os delegados e os clientes da casa. Uma das mulheres pediu para eles se retirarem porque não queria briga ali dentro. Nilton teria saído primeiro e ficou aguardando os delegados no corredor estreito do estabelecimento. “Quando os policiais passaram, Nilton teria falado: perdeu, perdeu. Os delegados sacaram as armas, mas Nilton foi mais rápido e acertou os dois”, comentou uma testemunha.

Escobar foi atingido duas vezes, no crânio e no tórax, e morreu no local. Soares, atingido no tórax, foi levado para o Hospital Florianópolis, mas não resistiu aos ferimentos. Nilton também foi baleado e se recupera no mesmo hospital. O atirador, que não tem porte de arma, usou uma pistola semiautomática calibre 380. Nilton está sob escolta policial e vai ser indiciado por duplo homicídio.

A investigação

O crime está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital. O delegado Ênio de Oliveira Mattos disse que as circunstâncias que teriam provocado o desentendimento entre os envolvidos ainda estão sendo apuradas. Durante toda esta quarta-feira, o delegado Ênio ouviu várias testemunhas e todas confirmaram o desentendimento entre os federais e o comerciante.

O advogado de Nilton, Marcos Paulo Silva Santos, não conseguiu falar com o cliente porque ele estava sedado, mas afirmou que os policiais federais não estavam na casa a trabalho. Com este crime sobe para 89 o número de mortes violenta neste ano em Florianópolis. Os corpos dos dois policiais foram transladados de avião nesta noite para o Rio de Janeiro, onde eles moram e trabalham. Soares e Escobar estavam na Capital participando de um curso  de segurança institucional, direcionado para delegados que assumem cargo de chefia na instituição. O curso, segundo fontes da Polícia Federal, é voltado para investigação e acompanhamento de escândalos políticos.

Segundo a assessoria da PF, Soares atuava como chefe da instituição em Angra dos Reis (RJ) desde 2009. Ele entrou na polícia em 1999. Escobar era chefe da Polícia Federal em Niterói (RJ) até março deste ano. Entre os trabalhos de Escobar destaca-se a investigação que ele comandou em 2014 em que os alvos eram oito policiais civis acusados de envolvimento com tráfico de drogas e extorsão no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Nota da PF

"A Polícia Federal lamenta a morte de dois delegados, ocorrida na madrugada de hoje (31/05) em Florianópolis/SC. Os dois atuavam em Angra dos Reis e Niterói, respectivamente, e estavam na cidade participando de uma capacitação interna.

O falecimento dos policiais decorreu de uma troca de tiros em um estabelecimento na capital catarinense.

Neste momento de imensa tristeza, a Polícia Federal expressa suas condolências e solidariedade aos familiares e amigos enlutados.

Sobre informações que relacionam um dos policiais mortos à investigação do acidente aéreo que vitimou o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, a PF esclarece que o inquérito que apura o caso encontra-se em Brasília/DF, presidido por outro delegado, e apenas foi registrado em Angra dos Reis, local do fato."

Divisão de Comunicação Social

Polícia Federal